Lucinha marcou com Antônio, o fotógrafo, às duas. Andressa, a filha, estava no salão de beleza pela manhã, exigindo que o maquiador disfarçasse os olhos tortos herdados da mãe. Horrorosa, Andressa. Lucinha também não é grande coisa. E nenhuma das duas entende que, para desentortar os olhos, também é preciso consertar o olhar.
Antônio, o fotógrafo, foi pontual. Gostaria de registrar mendigos com sua máquina, mas era preciso sobreviver. Então desperdiçava seu talento eternizando momentos que não interessam a ninguém além das Lucinhas. Ainda assim, sentiu-se mal por ter reparado na semelhança entre os olhos absolutamente medonhos daquelas mulheres. Um bom homem, Antônio.
Abrahão, marido de Lucinha, apareceu meia hora depois do combinado. Estava ocupado com Clarice, colega de faculdade de Andressa. Clarice gostava de Abrahão e dos olhos amendoados dele. Clarice não sabia que Andressa não era filha de Abrahão. Ele também não sabia.
Enquanto Antônio trabalhava, a família tentava parecer de fato uma família. Sorriam mecanicamente. Andressa ficou enjoada com o perfume de Lucinha. Andressa odiava a mãe, justamente por ser tão semelhante a ela. Abrahão se odiava por odiar Lucinha, mas gostaria de proteger Andressa de todas as mazelas do mundo. Andressa não se importava com isso.
Três semanas depois, as fotos foram expostas no Shopping Crystal.
Andressa exigiu as versões digitalizadas. Colocou no álbum do orkut.
Abrahão mostrou um retrato para Clarice. E lembrou de Andressa quando bebê.
Lucinha rapidamente tirou da bolsa os óculos escuros. Por baixo deles, as lágrimas.
Entre as socialites e os empresários, a exposição foi um sucesso.