Monday, November 20, 2006

todo conto de fada faz-de-conta que não sabe¹

Passou a manhã em jejum e, na hora do almoço, estômago roncando e a visão turva, foi até a rotisseria e tomou um prato de sopa. Dieta líquida, recomendação de Valentina. “Preciso emagrecer, como é que eu vou passar a temporada na praia gorda desse jeito, assim não dá”.

Quase dois dias sem comer nada, entrou na rotisseria pouco depois da hora do almoço e pediu pães amanhecidos para uma das moças que cuidavam do balcão. Só tocou nos alimentos que ganhou para dividi-los entre as crianças que a acompanhavam. “Muito obrigada, agora eles vão parar de chorar”.


Levantou às 10h57 e deu dinheiro para que a empregada fosse até a pet shop e trouxesse sapatinhos verdes para o pug, o mesmo que presenteara com uma coleira folhada a ouro na semana passada. “As ruas dessa cidade têm estado tão sujas, imagine se eu vou deixar a Pepita no meio dessa imundície, assim, sem proteção nenhuma”.

Acordada desde as 5h57, trabalhou o dia todo e, no fim do expediente, recebeu da patroa um par de tênis para que levasse para seu filho, que tinha a mesma idade de Eduardo. “Quase novo, olha que benção, eles foram lá no estrangeiro fazer compras e o menino já tinha enjoado desse aqui, agradeça a Deus”.


Passaria a ceia de Natal na casa dos pais do namorado e não queria fazer feio, foi ao shopping escolher roupas novas. Gastou todo o dinheiro que ganhara do pai e jogou a nota fiscal e um papel de bala no chão do estacionamento, enquanto falava ao celular. “Alicinha, eu tenho um babado prá te contar, você não vai acreditar, é sobre o noivado da Isabela”.

Limpou todo o estacionamento do shopping e guardou o uniforme antes de vestir as roupas rotas. Pegou dois ônibus e andou quatro quadras antes de chegar em casa e encontrar a filha, chorando e com diversos hematomas nos braços. “Ele me bateu muito, mãe, a senhora precisa me ajudar, eu vou fugir antes que ele me mate”.

Porque olhando mais de perto, ainda que vez ou outra eu me esqueça disso, toda história tem um lado B.

¹Martha Medeiros, em "Poesia Reunida".

Thursday, November 02, 2006

it's hard to explain

Às 7h15, quando o despertador avisou que já era hora de começar tudo outra vez, levantou-se rápido, surpreendentemente disposta. Antes de se dirigir à cozinha para procurar restos de pizza da noite anterior, olhou para ele e desejou poder fazê-lo todos os dias, pelo resto da vida.
Após o banho, penteada e levemente atrasada - como já era de praxe, despediu-se com um longo beijo e um abraço apertado. "A gente deveria se casar, babe".
No final da tarde, depois de atravessar o centro a pé e comprar um par de sapatos, voltou para o pequeno apartamento. Ao olhar a foto dele em cima da estante, resolveu combinar um encontro rápido, agora pensando no que diria para terminar o namoro que em breve completaria 11 meses.

Já era hora de começar tudo outra vez.