Thursday, August 31, 2006

ovelha dolly perde


Se eu tivesse uma tendência um pouco maior a acreditar em teorias da conspiração e similares, provavelmente já teria concluído que fui alvo de alguma experiência genética, a qual produziu um (ou mais de um) clone meu. Há cerca de 6 anos, diversas pessoas têm repetido sistematicamente que conhecem uma menina igual a mim. Parecida não; há relatos de que se trata de uma cópia fiel desta que ora escreve. Ui, que medo!
A história teve início quando uma desconhecida se aproximou de mim nos corredores do colégio onde então estudava, rindo e dizendo que tinha novidades bombásticas para me contar. Eu, que me encontrava num estado de considerável estafa mental - o que não me permitiu ter presença de espírito suficiente para fingir que éramos realmente amigas e tomar conhecimento acerca das fofocas, respondi que não me lembrava dela. A pobrezinha ficou roxa de vergonha e disse ter se confundido, "mas é que você é igualzinha a uma amiga minha!". E pediu desculpas umas 18 vezes antes de se retirar.
Desde então, episódios semelhantes têm se repetido com notória freqüência. Gritam nomes distintos do meu esperando que eu responda e perguntam se sou parente de fulana quase toda semana. Outro dia um carro passou por mim e a motorista buzinou freneticamente antes de gritar "Vê se me liga mais vezes, mulher do inferno!".
A princípio pensei que se tratasse apenas de alguém cuja lata lembra a minha, mas os comentários são sempre no sentido de que falamos, andamos e nos comportamos da mesma maneira. Tentei me desvencilhar do assunto buscando me convencer de que as pessoas são meio doidas e não têm discernimento para distingüir umas das outras, mas há pouco minha irmã viu meu espectro ("espectro" é bacana, hein, chamarei meu clone assim a partir de agora). Nas palavras dela, "eu tinha certeza de que você estava em casa, mas até a roupa era idêntica à sua. Vai ver é seu espírito, credo!". Saravá Exu!
O fato é que contei essas baboseiras todas para lançar uma espécie de campanha. Se existe uma criatura tão similar a mim, ora, sou eu a maior interessada em conhecê-la. Por tal razão, se acaso você, caro leitor, esbarrar com a Tatiana-que-não-é-Tatiana perambulando por aí, lembre-se do tempo que perdeu lendo essas singelas linhas e dê um jeito de trazer aquela até mim. De preferência, viva.

Saturday, August 26, 2006

cada um com seus problemas (ou não)

Cumprindo atividades impostas pela faculdade, assisti ontem, pela primeira vez, uma sessão no Tribunal do Júri. Homicídio simples, ocorrido em 1991. Passado algum tempo desde o início dos atos, cansei-me da pantomima da qual se ocupava a promotora, que buscava proceder a uma representação tão dramática quanto fosse possível. Li Nietzsche, saí do plenário, fui ao mercado, comprei cerveja, conversei com meus amigos. A única preocupação era com o horário; se acaso a defesa - que nem de longe possuía o apelo teatral da representante do Ministério Público, diga-se de passagem - se extendesse demais em sua malfadada exposição, eu me atrasaria para a aula, vejam só que absurdo. Tsc, tsc.
Como também não sou nenhum ser desprovido de consciência, a certa altura senti-me mal com minha própria postura. Um egoísmo sem precedentes pensar na minha matéria optativa enquanto o futuro de uma pessoa estava prestes a ser decidido. Mas não fui só eu a egocêntrica. O juiz fez piadinhas absolutamente sem graça logo após a leitura da sentença, um dos jurados quase dormiu durante as alegações, algumas meninas davam notas para os trajes dos demais acadêmicos.
Foi quando me ocorreu o pensamento de que, em verdade, não se tratavam de atitudes de absoluto personalismo, ao menos não no sentido pejorativo que costuma me vir à mente. A tendência precípua de qualquer pessoa é se interessar pelo que se relaciona à sua realidade de algum modo, pelo que lhe proporciona algum sentimento de identificação. Outros assuntos, num primeiro instante, parecem-nos por demais abstratos e distantes - e, de tal modo, atribuímos a eles menor importância.
Pensando assim, enquanto o réu saiu do local algemado, eu fui para a aula com a minha turma, falando besteiras e escutando Stones. Sem culpa.

Saturday, August 19, 2006

sem disfarces

Procurando estágio novo, houve uma ocasião em que tive de preencher uma daquelas fichas que mais parecem pseudo-análises psicológicas ou algo que o valha. Um ato terapêutico até. O responsável pelo setor de RH estava interessadíssimo (cof, cof) nas minhas memórias de infância, opiniões políticas e nos meus valores morais. Claro que também havia a questão quase clássica - "enumere aqueles que considera seus defeitos". Uma mísera linha para resposta, e eu tive de me controlar para não escrever que a maior falha da minha personalidade era ser educada o suficiente para não xingar o mané que achou que meus (inúmeros) defeitos caberiam naquele espaço mínimo.
Eu sou chata, um tanto quanto arrogante, impaciente, fresca, dramática, perfeccionista demais, exagerada, rabugenta, reclamona, petulante, neurótica, ufa, dá até preguiça de enumerar tudo; a lista iria longe demais. Um amigo disse que eu deveria parar de espalhar isso aos quatro ventos e que não havia vantagem nenhuma em fazer marketing negativo acerca de minha própria pessoa. Achei graça. Marketing negativo quem faz é atendente de empresa de cartão de crédito, com os verbos no gerúndio e a voz te-le-grá-fi-ca. Eu não; apenas alerto as pessoas para as desvantagens que terão de suportar se optarem por conviver comigo de alguma forma. É a dualidade humana, aquele clichê verdadeiro que diz que todos têm um lado bom e um ruim. Se é assim, qual a razão para manter este último escondido? Aqui o pacote é completo.
E olha que há quem concorde comigo. Inclusive o referido responsável pelo RH, que me convidou para o tal estágio pouco depois do episódio.

Wednesday, August 09, 2006

todo dia ela faz tudo sempre igual¹

Certa feita, em entrevista à tpm, Bebel Gilberto relatou alguns episódios pessoais. Quase uma espécie de retrospectiva, diria eu. Mencionou o tio Chico Buarque, as comparações com seus pais - Miúcha e João Gilberto, o início do Circo Voador, a adolescência vivida em outros países e a amizade com Cazuza.
A princípio, pensei que ela sim podia dizer que levava a vida de uma maneira extraordinária e tinha inúmeras histórias prá contar, ao passo que eu continuava aqui, na minha rotina mediana, ordinária, trivial.
Passados alguns instantes, como já é de praxe, mudei de idéia. Se Bebel gravou CDs e é elogiada pela crítica, eu sou backing de uma banda assumidamente cafona que só ensaia quando seus integrantes têm vontade. Se ela ganhava fantasias da Marieta Severo em época de Carnaval, eu e minhas primas inventávamos as nossas. Se ela passou uma noite toda de papo com Sean Lennon, eu já passei bem mais de uma com os melhores amigos que existem, bebendo, rindo e me divertindo adoidado.
Bebel pode até ter conhecido Kate Moss e saído na Rolling Stone. Mas não é ela quem sabe o quanto é bom jogar sinuca depois da aula, passar uma tarde inteira andando sem rumo ou tomar uma bera no Largo em um dia ensolarado.
Imagino que seja realmente muito bacana ser neta de Sérgio Buarque de Hollanda e convidada especial nas festas do Testino. Agora, extraordinário mesmo é viver essa rotina mediana, ordinária, trivial - e tirar um prazer enorme de tudo isso.

¹Cotidiano - Chico Buarque